segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O império das calças pretas

As pessoas que trabalham em escritórios pelo mundo afora devem se identificar com esse post.

Só uma coisa me irritava mais no trabalho de escritório que fazia do que acordar cedo, as idas a banco e a burocracia: as calças pretas.

Não é tanto sobre a calça em si, mas é que na maioria das instituições você é obrigado a usar um uniforme. E essa peça do vestuário simboliza a herança da sociedade disciplinar de que Foucault falava e que se instaurou no começo da revolução industrial com o intuito de homogeneizar as massas de trabalhadores. Individualidade, perspectiva e visão críticas não fazem parte desse modelo de sociedade do século XIX.

Na maioria dos casos, a calça preta faz parte do uniforme. E, às 6 da manhã quando eu a vestia para com ela passar a maior parte do meu dia, abria mão da minha individualidade e da minha identidade. Pense bem: você sequer pode escolher a roupa que vai vestir. E essa escolha diz muito às outras pessoas sobre quem você é através de códigos criados ao longo do tempo não só no campo profissional, mas na moda e nos costumes de cada cultura do globo. Os médicos usam branco, os advogados se vestem formalmente e se você conhecer um publicitário ou cineasta que não tem pelo menos um par de tênis coloridos, me avisa.

Quem é que nunca se olhou no espelho de uniforme antes de sair pra trabalhar e enxergou um estranho? As pessoas saem de casa sendo parte de uma massa uniforme cujo único objetivo é produzir, dia após dia e com isso ocupam a maior parte de inúmeros anos de suas vidas.

Eu proponho que voltemos a pensar, a ter uma visão crítica, a nos expressar e a ser nós mesmos no nosso dia-a-dia. E que as manchas e desgaste únicos dos jeans mais uma vez sejam símbolo de rebeldia como na década de 50. Benditos sejam os jeans, os tênis e as roupas coloridas e toda e qualquer coisa que sirva pra nos diferenciar uns dos outros num mundo em que, apesar de toda a liberdade e o acesso rápido e fácil à informação, cada vez mais o sistema nos pressiona para estar em acordo com os padrões propostos não só para as vestimentas, mas para a maneira de pensar e de encarar a vida.

3 comentários:

protoplasmatica disse...

Eu ia fazer um comentario, mas ia ficar mto filosofico, então eu desisti. Depois eu falo pessoalmente, acho mais fácil.

Fil Porto disse...

A revolução industrial trouxe para a sociedade a busca pelo lucro, e naquela época nem existiam direitos e garantias trabalhistas.Mas hoje a utilização de uniformes em estabelecimentos empresariais é ordinário, não há um que não haja, que seja um macacão que todos tenham de usar.
Não ha realmente a individualidade do ser no todo, ela no máximo terá destaque em suas ações, na forma como ele faz seu trabalho diário, fora isso, ele é so mais um empregado, trabalhando como bem caracterizou Chaplin em Tempos Difíceis, onde ele interpreta um empregado na linha de montagem de uma sociedade empresarial.
É claro que dependendo do emprego, faz-se necessário uma certa formalidade, pois nem todos têm noção de como se vestir em local de trabalho, muitos acabarão fazendo de seu emprego, uma extensão de seu domicílio, então para evitar este tipo de situação é necessário impor regras.
Você aludiu às áreas de cinema e marketing, mas essas áreas são notoriamente informais, exceto quando há alguma reunião onde se precise ir mais formalmente trajado, fora isso, sempre usam roupas casuais.
Desta forma, concordo plenamente com sua crítica Diogo, há momentos em que isso é de um incômodo muito grande, deixamos nós mesmos em casa, e levamos o "outro" para a rua rumo ao trabalho.

Renata disse...

É uma espécie de farda da turma dos trabalhos burocráticos. Minha calça preta já sabe de ''cor'' o caminho aqui do trabalho... rsrsrs