Você pode conferir o meu trabalho em fotografia acessando o meu Portfolio Online, pode checar os trabalhos postados aqui no blog ou dar uma lida sem compromisso e ver o que anda me mantendo ocupado.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um sonho bom

Como numa colagem cinematográfica, as imagens da minha vida vão se sucedendo cada vez mais rápido até que, como uma lâmpada fluorescente, tremulam rapidamente até se apagar por completo.

Acordo e parte de mim já sabe onde estou. O ambiente é gelado. O chão, as paredes, o teto, tudo é construído em aço inoxidável. O lugar é impecavelmente limpo. Mais do que isso, iluminado em excesso por luzes frias, ele é estéril. Não há cheiro, não há uma corrente de ar sequer. Muito diferente do que eu esperava, de tudo que já tinha lido. Isso o tornava ainda mais inquietante.

Visto apenas um avental verde claro, como esses que se usam em hospitais, e sinto frio. Estou de pé, numa longa fila que se estende por um corredor que não parece ter fim. Todos parecem apreensivos. Ninguém conversa. O silêncio só é interrompido pelos gritos. Tento de todas as maneiras ver o que acontece adiante, mas é impossível enxergar o que me espera. A ansiedade toma conta de mim. Cada silêncio se torna mais pesado e não consigo encontrar uma brecha para rompê-lo.

A fila não anda num ritmo previsível. A expectativa só faz piorar o frio, o tédio e a ansiedade, cada vez mais insuportável. Fico me perguntando o que eu teria feito para estar ali. Cada ação egoísta, cada decisão inconsequente que tomei, todas as vezes em que poderia ter sido mais gentil, mais amoroso, aquele tênis que comprei mesmo sabendo que foi fabricado por crianças em regime de semi-escravidão na Indonésia, tudo isso me passa pela cabeça. Não há nenhuma falta grave. Talvez seja apenas a soma desses pequenos delitos. E se for uma alguma coisa da qual eu nem lembro? Bem capaz de não ser nada disso, afinal ninguém sabe ao certo quais são os critérios.

Sou o próximo. Meu nome completo é chamado, de forma cordial. Caminho e me deito em uma cama de metal, pensando em todas as perguntas que gostaria de fazer. Mas não há respostas. Apenas procedimentos, regras, o sistema. Meu inferno é frio, estéril e burocrático. Um homem de aparência profissional se aproxima. Cuidadosamente prepara seus instrumentos de trabalho. Com a precisão e a assepsia que poderia se esperar de um cirurgião competente, ele me tortura enquanto cantarola uma música.

Não é tão ruim quanto eu achava que seria. E nem de longe tão ruim quanto a ansiedade de aguardar sem saber o que está por vir, de tentar em vão encontrar uma explicação racional para o porquê de estar ali. Nem sinto mais medo. Já acabou. Droga, a música ficou na minha cabeça.

Abro os olhos e estou no meu quarto. Me sentindo seguro, acordo com um estranho sorriso de satisfação no rosto. Para o meu próprio espanto, assobio uma canção. É... parece que essa noite tive um sonho bom.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crítica:: Falta humanidade em Inimigos Públicos

Gosto muito dos filmes de Michael Mann, seja pela estética visual, herdada dos film noir, seja por sua capacidade de dirigir cenas de ação. Mann é o melhor diretor de cenas de tiroteio que já vi e por isso, esperava bastante de um filme de gangsters dirigido por ele. A presença de Johnny Depp, Christian Bale e a ganhadora do Oscar Marion Cotillard também ajudaram a elevar as expectativas em relação ao longa que conta a história real do mais famoso assaltante de bancos da América, John Dillinger. A ação está lá, mas a trama é confusa, demora a engrenar e não conseguiu me conquistar.


A estética de Mann se faz presente no filme. A fotografia de Dante Spinotti é excelente. Visualmente, o filme é interessante pela escolha de enquadramentos menos convencionais e pelo uso da câmera na mão. Esse recurso ajuda a nos inserir na ação, mas o diretor abusa dele e acaba criando uma linguagem moderna demais, que entra em conflito com o contexto histórico do longametragem. Certamente não vai agradar a audiência mais conservadora.


As cenas de ação, entre fugas, perseguições e tiroteios, estão entre os pontos altos do filme e reafirmam essa especialidade de Mann. Não somente ele encena e coordena a ação de modo eficiente, como tem o know how, essencial, diria, de como posicionar as câmeras para tirar o melhor daquela cena. A primeira seqüência do filme e o grande tiroteio entre John Dillinger, Baby Face Nelson e seus comparsas e Melvin Purvis mais os agentes do FBI são exemplos dessa especialidade de Michael Mann enquanto diretor.


Mas, se Inimigos Públicos tem ação e estética convincentes, o que falta mesmo é um roteiro melhor. O próprio Michael Mann, Ann Biderman e Ronan Bennett adaptaram o livro de Bryan Burrough em um roteiro em que falta ritmo e personagens consistentes. Parece que estamos diante de uma seqüência de fatos históricos reconstituídos diante da câmera inquieta do diretor. Fatos esses que por vezes mal parecem estar conectados, a não ser por Dillinger. Não há uma ação dramática que norteie a trama. A grande quantidade de personagens é difícil de acompanhar e mesmo os protagonistas, jamais ganham a importância e profundidade que merecem. Tanto é que em momento algum nos identificamos com eles ou nos importamos com seu destino, já traçado, evidentemente.


Ainda assim, Johnny Depp, Christian Bale e Marion Cotillard fazem o melhor que podem, com Bale se destacando no papel de Melvin Purvis, o homem encarregado de capturar Dillinger, e Depp repetindo com propriedade a irreverência que o marcou em outros papéis de sucesso. O problema é que talvez pelo fato de seus personagens terem sido reais, o espaço para a construção deles tenha sido um tanto limitado. Não deixa de ser irônico a preocupação com a veracidade tê-los deixado falsos na tela grande.


Inimigos Públicos acerta na parte técnica, mas peca pela falta do componente humano, o que faz com que você assista a mais de duas horas de filme sem se comover ou se importar com mais nada, a não ser com aquele belo enquadramento ou a adrenalina e realidade das cenas de tiroteio, executadas com maestria por um diretor competente com 100 milhões de dólares de orçamento e uma equipe extremamente competente.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A invasão dos vampiros que bebem água com açúcar

Os vampiros são figuras míticas do folclore mundial que nos fascinam há séculos, desde as primeiras lendas, transmitidas oralmente. A literatura e o cinema foram tomados, ao longo dos anos, por um sem número de histórias envolvendo estes personagens que se alimentam da força vital de outros, o que normalmente é representado pelo seu hábito de beber o sangue de suas vítimas. Mais do que isso, essas criaturas estão relacionadas no imaginário popular ao mistério, ao terror, ao sexo, à sedução e, principalmente ao desejo humano de resistir ao tempo e à morte, que são provavelmente os únicos limites que jamais conquistaremos.

No cinema, eles já foram explorados em centenas de filmes dos mais variados gêneros, que vão desde o clássico do expressionismo alemão Nosferatu (1922), de Murnau, à adaptações de obras literárias de sucesso, como Entrevista com o Vampiro (1994), do livro de Anne Rice, e Drácula (1992), adaptado a partir do romance de Bram Stoker sobre o mais famoso vampiro de todos os tempos. Se quiser, você pode conferir uma lista com os 70 melhores filmes de vampiros de todos os tempos, na opinião do autor, aqui.

Na televisão, tanto no Brasil quanto no exterior, os vampiros fizeram sucesso como protagonistas e antagonistas de novelas e seriados, com destaque para Buffy, a Caça Vampiros, que teve sete temporadas a partir de 1997 e ainda gerou spin-offs.

Mas os executivos responsáveis por produzir conteúdo para televisão e cinema operam na lógica capitalista moderna, que tem como um de seus pilares proteger seus investimentos através da busca do máximo de lucro com o mínimo de risco. Os públicos de TV e cinema diminuem. Assim, todos querem atingir os adolescentes, que são quem mais consomem produtos audiovisuais. Para Hollywood, em particular, isso significa atingir a 'mágica' classificação PG-13 no mercado norteamericano.

É evidente que histórias de vampiros vendem. O mistério, o sobrenatural vendem, são lucrativos. Mas a violência, o sexo e as questões morais complexas que acompanham estes personagens impedem os executivos de lucrar mais se arriscando menos. A solução é óbvia: adaptar obras que fizeram sucesso e que, de um jeito ou de outro, abandonaram as questões controversas que incomodam uma sociedade cada vez mais conservadora. Se deixa de lado o sangue, o terror, a sexualidade, as implicações morais do ato de se alimentar da vida de alguém até que não reste mais nada além de um romance adolescente devidamente reprimido que, com a dose certa de publicidade e o casting adequado, vai arrebatar adolescentes ao redor do mundo, garantindo os lucros exorbitantes dos investidores de filmes como esses da saga Crepúsculo. E, pela lógica do capitalismo e do consumo, quando um produto faz sucesso, o mercado é inundado por similares que geralmente conseguem ser piores do que o original, como essa série que a Warner exibe agora, Diários de Vampiro.

Como nem tudo está perdido, ainda há quem encontre espaço para produzir livros, filmes e séries com a verdadeira essência dos vampiros, ou ainda com uma visão original que consiga preservar os dilemas que permeiam o universo de homens e mulheres imortais que pagam um alto preço por esse dom. True Blood, seriado da HBO americana, encontrou nos livros de Charlaine Harris material rico e não se absteve de levar para as telas questões morais, sociais e políticas de forma tão adulta e crua, que é recomendado para maiores de 18 anos. Mesmo assim, faz enorme sucesso. Daybreakers (2010) aposta no gênero sci fi e parece propor a inversão de alguns paradigmas pra trazer algo de novo para as histórias de vampiros sem abandonar seus conceitos básicos, ainda que seja um blockbuster. Estreia ano que vem. Vamos esperar. Por fim, o aclamado sueco Deixe Ela Entrar (2008), de Tomas Alfredson, baseado no livro e com roteiro de John Ajvide Lindqvist, é um dos mais belos filmes que vi nos últimos tempos. Em cartaz nos cinemas, é simplesmente imperdível. Nem seria justo falar desse filme sem dedicar um post inteiro a ele.

Por isso, nesse final de semana, mesmo que não seja possível compará-los, se quiserem ver um filme sobre vampiros, vão conferir o sueco e, por favor, evitem os filmes de vampiros que se alimentam de água com açúcar, que me assustam muito mais do que os de verdade.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Lost In Translation

Peguei emprestado o título do excelente filme de 2003 da diretora e roteirista Sofia Coppola para contar um pouco do processo de adaptar Retrato de Família para uma língua estrangeira.


A adaptação desse roteiro de drama no qual já venho trabalhando há um tempo faz parte de um plano para tentar encontrar algum espaço no mercado internacional que, apesar de muito mais concorrido, tem também muito mais oportunidades.


O primeiro passo para iniciar esse trabalho foi olhar para a história como um todo e identificar nela o que precisaria ser modificado numa transposição para uma realidade estrangeira. Americana, no caso. Facilitou muito o fato desse drama ser basicamente uma história universal sobre a culpa e a perda. Uma história essencialmente humana que poderia se passar em qualquer lugar do mundo.


Depois, comecei a escrever, do zero, em inglês. O que parecia ser o mais difícil, os diálogos, acabaram vindo naturalmente. É claro que os personagens são pessoas comuns e isso ajuda bastante. Nada de intelectuais de vocabulário rebuscado ou o palavreado técnico típico de uma carreira científica, por exemplo. Se estima que o vocabulário que a maioria das pessoas utilizam para se comunicar verbalmente representa uma pequena fração das palavras existentes em uma dada língua. Talvez isso e o fato de já ter assistido tantos filmes e seriados expliquem essa grata surpresa.


Mas, como o título do post sugere, nem tudo são flores nesse processo. Assim como ocorre com os personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson em Lost In Translation, a sensação de vazio e de solidão por vezes toma conta. Acho que é inevitável quando se está escrevendo em uma língua estrangeira, ainda que você esteja cercado de dicionários e ferramentas para apoiá-lo nessa tarefa. O que parecia ser fácil, as descrições de cena, acabaram se revelando um tremendo desafio. Isso porque, apesar de a prosa audiovisual ser enxuta e estritamente visual, de vez em quando a palavra mais interessante falta, a melhor construção escapa. Não é que não haja palavras no meu vocabulário, ou referências e regras para a construção gramatical adequada. É que, versátil como poucas, a língua inglesa permite ao interlocutor uma miríade de opções na hora de formar orações e sentenças. E é preciso fluência, experiência e sensibilidade na hora de escolher a forma mais elegante e instigante de descrever algo tão simples quanto alguém que se levanta de sua mesa e atravessa um ambiente.


Aos poucos, eu chego lá.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Crítica:: Besouro se esquiva das armadilhas

Quando assisti pela primeira vez o trailer de Besouro, fiquei extremamente empolgado com a qualidade visual do filme, que conta com a bela fotografia de Enrique Chediak, e claro, com as cenas de luta de capoeira, coreografadas por Hiuen Chiu Ku (O Tigre e o Dragão, Kill Bill). Fui à pré-estreia com uma grande expectativa em relação ao filme. Para a minha surpresa, o primeiro longa metragem do premiado diretor de filmes publicitários João Daniel Tikhomiroff, que já conquistou 11 Leões de Ouro no Festival Internacional de Filmes Publicitários de Cannes, é mais do que isso.

Desde o princípio, o diretor estabelece um diálogo com o espectador através do bem pensado uso da câmera em primeira pessoa e da narrativa pouco linear. Assim, ele constroi um clima que contribui para a espécie de fábula que vai sendo contada em imagens. O simbolismo com os elementos da capoeira e dos orixás do candomblé, materializados por elenco e departamento de arte competentes, contribuem para fazer você entrar no filme, assim como a bela trilha musical com participação de Gilberto Gil e Nação Zumbi.

O elenco todo vai bem e os atores que representam os antagonistas se destacam. Irandhir Santos está irrepreensível como Noca de Antônia, assim como Flávio Rocha, no papel do Coronel Venâncio. Jéssica Barbosa e Anderson Santos de Jesus estão ótimos como Dinorah e Quero-quero, esse último ganhando força ao longo da trama. Aílton Carmo teve um grande desafio. Besouro é um personagem difícil de interpretar, com poucas falas e muitos momentos de introspecção. Mesmo assim, ele dá conta do recado e consegue dar veracidade e profundidade às ações do capoeirista.

A história começa com informações importantes na narração de Milton Gonçalves que ficam redundantes com o uso das cartelas. A trama se inicia num ritmo mais lento e arrastado, mas depois engrena e prende o espectador na poltrona até o final da projeção. Em muitos momentos e em especial no clímax, o diretor opta por uma não-linearidade narrativa que é interessante para a obra, mas que corre o risco de perder uma audiência menos atenta às sutilezas do filme.

As cenas de luta são um capítulo à parte. São as mais bem coreografadas, dirigidas e fotografadas que eu já assisti no cinema nacional. As opiniões de capoeiristas experientes sobre como o filme mostra sua arte foram muito positivas. Na que pra mim é uma das melhores cenas do filme, Besouro e Dinorah fazem um jogo absolutamente delicioso num contexto de sedução e cumplicidade que é emoldurado pela capoeira. Um momento lindo que será melhor apreciado por quem está familiarizado com alguns dos rituais e tradições dessa mistura de arte marcial com dança, música e expressão cultural considerada hoje patrimônio nacional.

Besouro consegue ser genuinamente brasileiro sem ser folclórico demais, um erro recorrente no cinema nacional. Tem ação sem abandonar as sutilezas e transmite uma mensagem sem ser político ou hermético. Seus criadores parecem ter conseguido se esquivar de todas essas armadilhas para produzir um bom filme.

Você pode acessar o site oficial aqui e assistir o trailer de Besouro abaixo:

sábado, 10 de outubro de 2009

Torcendo pelo pior

Outro dia estava assistindo Stock Car Brasil na televisão e curiosamente me peguei torcendo por uma batida, um acidente, uma rodada. Torcendo, enfim, pelo pior. Não que isso seja exclusividade minha. Os americanos assistem à NASCAR, a stock car americana, torcendo por um evento catastrófico e vibrando com ele, contanto que ninguém se machuque seriamente. Não é que sejamos pessoas ruins. É uma reação apenas humana.

Em "Três Usos da Faca", excelente livro do cineasta americano David Mamet sobre as estruturas dramáticas e como nós, seres humanos, nos relacionamos com elas, Mamet diz que procuramos sempre trazer o drama para nossas vidas. Quando nos relacionamos com o mundo, automaticamente procuramos enquadrá-lo em uma estrutura e nos identificamos com os protagonistas e com suas ações por intermédio de suas características humanas. E não há nada mais humano do que o erro.

Por isso o esporte é dramático por natureza, mesmo que a maioria de seus eventos se organizem em mais ou menos atos do que os três da estrutura aristotélica clássica.

Talvez esteja aí explicado o sucesso de público das categorias de stock car, onde os carros são mais equilibrados, mais numerosos, os pilotos podem se tocar e estão muito mais propensos a errar, especialmente se compararmos às corridas de monoposto, como a F-1.

Torcemos pelo acidente, pelo erro e pela batida não pelo possível efeito plástico que será capturado por inúmeras câmeras de alta definição e que veremos diversas vezes em câmera lenta. Torcemos pelo pior para nos aproximar dos protagonistas, nos identificarmos com eles num nível mais essencial, nos colocarmos em seus lugares e para, como sempre, tentar colocar um pouco mais de drama em nossas vidas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Na ponta da cadeia

O discurso de produtores, roteiristas e diretores presentes no RioMarket está afinado: precisamos de mais filmes de sucesso para fortalecer o cinema nacional. E para isso, não existe fórmula secreta. O que faz diferença é um produto de qualidade. E no caso do cinema e do audiovisual em geral, isso começa invariavelmente com uma boa história. Sem um bom roteiro, nem o mais talentoso dos diretores é capaz de fazer um bom filme.

É aí que surge parte do problema do mercado cinematográfico nacional: é difícil encontrar boas histórias. Não é que não tenhamos roteiristas competentes ou talentosos. Muito pelo contrário, temos excelentes profissionais e poucas oportunidades. Isso porque, segundo representantes das maiores produtoras do cinema nacional, eles estão estrangulados financeiramente. Por isso, sobram poucos recursos para investir no desenvolvimento dos projetos, o que faz com que roteiros crus e, em alguns casos, até mesmo roteiros ruins cheguem aos cinemas brasileiros, o que é ajudado, em parte, por conta de uma política de incentivos que, durante muito tempo, não deu nenhuma importância aos resultados nas bilheterias.

Depois que um projeto se inicia, custa muito caro abandoná-lo, mesmo que aquela história não vá render tanto quanto deveria. Do mesmo modo, custa muito caro pros produtores, na atual situação, bancar o desenvolvimento dos projetos durante um grande período de tempo. Um roteiro de cinema é como uma pedra preciosa, que tem que ser lapidado até chegar ao ponto de ser filmado. Isso demanda tempo e profissionais de qualidade. E esses dois fatores custam dinheiro.

Outra questão é que, sem a devida atenção aos roteiristas, fica mais difícil formar novas gerações de profissionais especializados nesse segmento da indústria cinematográfica. E parece estar bem claro para todos os envolvidos que precisamos cada vez mais desses profissionais.

Só pra se ter uma ideia, um dos palestrantes do RioSeminars citou o cinema americano como exemplo de desenvolvimento de projetos. Lá, para cada filme que chega aos cinemas, os grandes estúdios desenvolvem, em média, 50 projetos. É claro que essa peneira ainda deixa passar roteiros de qualidade duvidosa, mas certamente contribui para o sucesso comercial da cinematografia dos EUA no resto do mundo.

Ainda falando em números, uma rápida consulta ao site da WGAW (Writers Guild of America - West), um dos dois sindicatos que regulam a profissão de roteirista naquele país, permite verificar que no ano de 2008, 1.716 roteiristas declararam ter trabalhado nos 610 filmes lançados nos EUA naquele ano. No Brasil, em 2007, segundo dados da ANCINE (os de 2008 ainda não estão no site), 78 longametragens chegaram às salas de cinema. A ARTV (Associação Brasileira de Roteiristas Profissionais de TV, Cinema e outros Meios de Comunicação) tem cerca de 100 associados. Mesmo não sendo obrigatório ser filiado à ARTV ou ao STIC (Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica) para trabalhar na área, não acredito que esses 78 filmes tenham empregado mais que 150 roteiristas no ano de 2007.

Numa indústria, temos empregados especializados em funções definidas. Essa é a base dos modernos sistemas de produção e agora o audiovisual brasileiro parece estar começando a se preocupar com isso. Todos almejam fazer produtos de qualidade para obter o desejado sucesso comercial, o que é louvável. Para isso, é preciso investir na ponta da cadeia produtiva, no profissional que entrega aos seus companheiros a matéria prima com a qual bons filmes são feitos. Sem investir no desenvolvimento de roteiros, é impossível criar uma indústria audiovisual forte e saudável no Brasil. Ou, na minha opinião, em qualquer outro lugar do mundo.

PS.: O site da ARTV tem um texto de interesse sobre o assunto tratado por esse post. Clique aqui para acessar.

Precisamos de cinema pipoca

Estive na última semana envolvido com o Festival do Rio. Quase não assisti a nenhum filme, mas procurei participar ativamente do RioMarket, o evento paralelo que discute negócios e o mercado do audiovisual nacional e internacional. Acho de fundamental importância discutirmos o cinema brasileiro para que possamos construir um futuro melhor para ele e, por tabela, para nós, profissionais da área.

Os três primeiros dias do evento foram abertos a quem se inscrevesse com antecedência pela internet e, para minha surpresa, estavam relativamente vazios.

O primeiro dia teve como tema o financiamento do audiovisual, com destaque para a apresentação do presidente da ANCINE, Manoel Rangel. Ele descreveu com muito eloquência o panorama do mercado brasileiro atual e, principalmente, demonstrou ter visão de pra onde ir a seguir. Foi muito interessante também a apresentação do Rio Audiovisual, um ambicioso programa de revitalização e incentivo a audiovisual carioca, parceria da Secretaria de Cultura do Estado e de uma renovada RioFilme, sob o comando do competente Sérgio Sá Leitão.

O segundo dia trouxe representantes de duas das maiores produtoras nacionais, a Conspiração Filmes e a Total Entertainment, além de Paula Lavigne, uma produtora independente de peso no cenário nacional. Eles se revezaram para falar dos filmes de sucesso no Brasil nos últimos anos. O sábado ainda contou com uma mesa intermediada por Rodrigo Fonseca, em que Mariza Leão, produtora e roteirista, e René Belmonte, roteirista, falaram sobre escrever filmes de sucesso no Brasil.

O terceiro dia foi mais voltado para a televisão, com representantes da Globo e da Record discutindo como escrever o que o espectador quer ver e como produzir sucessos de audiência. Destaque para a presença de Roberto Farias, híbrido de cineasta e homem de TV, segundo palavras do próprio.

O que ficou desses primeiros dias de discussão é que, se quisermos ter uma indústria cinematográfica auto-sustentável e saudável, capaz de produzir em quantidade e qualidade e de absorver a mão de obra disponível no mercado, temos que investir em filmes que tragam retorno financeiro. É reinvestindo esses recursos no mercado que iremos transformar a realidade atual. Precisamos de filmes de sucesso. Precisamos de blockbusters.

PS.: A fotografia que ilustra o post é da galeria do Festival do Rio no Flickr. Lindas fotos. Confiram.

domingo, 23 de agosto de 2009

Séries adotivas

Outro dia conheci uma pessoa que acompanha E.R. desde a sua primeira temporada. Ela acompanha a série há 15 temporadas e disse que conhece os personagens há mais tempo do que o próprio marido, o que provavelmente é verdade se considerarmos que o seriado estreou em 1994 na TV americana.

O objetivo de um bom seriado de TV, mais do que nos filmes, eu diria, é fazer com que nos identifiquemos com os personagens. Eventualmente, ao longo das temporadas, nos afeiçoamos ao agente do FBI que acredita numa conspiração do governo para esconder a existência de alienígenas, ao amigo galanteador que nunca deixa passar uma oportunidade de cantar alguém e que vive roubando comida da geladeira dos amigos e até ao carteiro arqui-inimigo de um comediante standup.

São anos de convivência, nos envolvendo em suas existências com um nível de detalhes que não nos é reservado nem mesmo pelos nossos melhores amigos na vida real. Isso se tivermos a sorte de manter esse amigo por perto ao longo de tantos anos, o que é cada vez mais difícil nesse mundo onde as coisas acontecem e 'desacontecem' com a mesma rapidez.

O que é que fazemos quando perdemos alguém? Quando termina um relacionamento amoroso, quando um amigo se muda pra outro país? Normalmente há um período de luto e, depois de um tempo, você parte pra outra.

Confesso que fiquei arrasado quando Friends, Arquivo X e Seinfeld, principalmente, chegaram ao fim. Então decidi dar um tempo. Tive um envolvimento rápido com Heroes, Monk, CSI, Big Bang Theory e outras aqui e ali que eu prefiro nem mencionar. Nada sério, eu juro. Exceto Lost e House.

Eventualmente assisti How I Met Your Mother e conheci Ted Mosby e seus amigos. Aos poucos, deixei de sentir tanta falta de Friends. As referências aos amigos não são poucas, como o emprego misterioso do Barney (vai me dizer que vocês esqueceram a running joke sobre o trabalho do Chandler?), mas nem de longe são o que define o programa. Acabei viciado nesse seriado que consegue ser (muito) engraçado, misturar a isso um pouco de romance e drama e ainda tratar alguns temas de forma mais adulta do que aquele dos seis amigos inseparáveis.

Depois, o J. J. Abrams, que já tinha me balançado com Alias e me fisgado com Lost, acertou mais uma vez com Fringe, ocupando o espaço vazio deixado pelo Agente do FBI Fox Mulder e sua parceira, Dana Scully. Olivia Dunham, a protagonista de Fringe, está a frente de uma equipe incomum que investiga estranhos fenômenos conectados ao que parecem ser ataques terroristas. A série não só consegue parecer (um pouco) mais verossímil, como tem personagens muito interessantes e tramas intrigantes. Tem tudo pra cair no gosto dos abandonados fãs de um seriado que marcou época, mas terminou já sem o brilho das primeiras temporadas.

Por último, nem tudo na vida são flores e por isso, vou ser sincero. Lamento dizer que jamais encontrei algo à altura de Seinfeld. Acho que tem certas coisas que não tem como substituir, não é? O que nos resta é a esperança de que um dia surja um sitcom que consiga retratar a nossa sociedade de forma tão irreverente e original e nos divertir falando sobre o nada. Enquanto isso, vou aproveitando esses programas que, como séries adotivas, não julgo melhor nem pior do que aquelas que substituíram em meu coração. Eu as amo do mesmo jeito, garanto.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Muito além de televisão

Na última semana, Globo e Record levaram a disputa saudável que vêm travando pela audiência da televisão brasileira a um outro nível.

Depois que o Jornal Nacional deu destaque às acusações do Ministério Público paulista contra o Bispo Edir Macedo e a cúpula da Igreja Universal e citou a Rede Record na reportagem, essa disputa ficou franca e aberta como nunca antes. A Record reagiu através de seus telejornais, fazendo críticas diretas e acusações um tanto conspiratórias à Rede Globo.

A sua última cartada foi comprar o polêmico documentário Muito Além do Cidadão Kane. Produzido em 1993 para o Channel 4 britânico, ele acabou se tornando um filme 'cult' e foi bastante divulgado e assistido numa época em que filmes circulavam através de cópias em VHS, e não pela internet.

Segundo reportagem da Folha Ilustrada, a Record comprou os direitos do filme, através do produtor John Ellis, por meros US$ 20 mil. Apesar de não poder exibir todo o documentário por questões que envolvem direitos autorais de imagens da Globo contidas no filme, a emissora do Bispo Macedo pode exibir os trechos autorais do mesmo.

Apesar de ser contra misturar religião e comunicação, não tenho nada contra a Rede Record e acho admirável que ela venha fazendo esforços pra concorrer com a programação da Globo de igual pra igual, produzindo seriados e novelas em uma escala em que só a concorrente fazia até pouco tempo atrás.

Como em todo país democrático com liberdade de expressão e livre mercado, quando duas empresas dessa magnitude iniciam uma disputa como essa, geralmente o consumidor, nesse caso o espectador, pode tirar algo de positivo do processo, se for capaz de pensar de maneira crítica.

Sendo assim, já que a Record não pode exibir o documentário sobre Roberto Marinho na íntegra, eu o faço. Não para tomar partido, apenas para exercer o meu direito de poder fazê-lo.