terça-feira, 20 de outubro de 2009

Crítica:: Besouro se esquiva das armadilhas

Quando assisti pela primeira vez o trailer de Besouro, fiquei extremamente empolgado com a qualidade visual do filme, que conta com a bela fotografia de Enrique Chediak, e claro, com as cenas de luta de capoeira, coreografadas por Hiuen Chiu Ku (O Tigre e o Dragão, Kill Bill). Fui à pré-estreia com uma grande expectativa em relação ao filme. Para a minha surpresa, o primeiro longa metragem do premiado diretor de filmes publicitários João Daniel Tikhomiroff, que já conquistou 11 Leões de Ouro no Festival Internacional de Filmes Publicitários de Cannes, é mais do que isso.

Desde o princípio, o diretor estabelece um diálogo com o espectador através do bem pensado uso da câmera em primeira pessoa e da narrativa pouco linear. Assim, ele constroi um clima que contribui para a espécie de fábula que vai sendo contada em imagens. O simbolismo com os elementos da capoeira e dos orixás do candomblé, materializados por elenco e departamento de arte competentes, contribuem para fazer você entrar no filme, assim como a bela trilha musical com participação de Gilberto Gil e Nação Zumbi.

O elenco todo vai bem e os atores que representam os antagonistas se destacam. Irandhir Santos está irrepreensível como Noca de Antônia, assim como Flávio Rocha, no papel do Coronel Venâncio. Jéssica Barbosa e Anderson Santos de Jesus estão ótimos como Dinorah e Quero-quero, esse último ganhando força ao longo da trama. Aílton Carmo teve um grande desafio. Besouro é um personagem difícil de interpretar, com poucas falas e muitos momentos de introspecção. Mesmo assim, ele dá conta do recado e consegue dar veracidade e profundidade às ações do capoeirista.

A história começa com informações importantes na narração de Milton Gonçalves que ficam redundantes com o uso das cartelas. A trama se inicia num ritmo mais lento e arrastado, mas depois engrena e prende o espectador na poltrona até o final da projeção. Em muitos momentos e em especial no clímax, o diretor opta por uma não-linearidade narrativa que é interessante para a obra, mas que corre o risco de perder uma audiência menos atenta às sutilezas do filme.

As cenas de luta são um capítulo à parte. São as mais bem coreografadas, dirigidas e fotografadas que eu já assisti no cinema nacional. As opiniões de capoeiristas experientes sobre como o filme mostra sua arte foram muito positivas. Na que pra mim é uma das melhores cenas do filme, Besouro e Dinorah fazem um jogo absolutamente delicioso num contexto de sedução e cumplicidade que é emoldurado pela capoeira. Um momento lindo que será melhor apreciado por quem está familiarizado com alguns dos rituais e tradições dessa mistura de arte marcial com dança, música e expressão cultural considerada hoje patrimônio nacional.

Besouro consegue ser genuinamente brasileiro sem ser folclórico demais, um erro recorrente no cinema nacional. Tem ação sem abandonar as sutilezas e transmite uma mensagem sem ser político ou hermético. Seus criadores parecem ter conseguido se esquivar de todas essas armadilhas para produzir um bom filme.

Você pode acessar o site oficial aqui e assistir o trailer de Besouro abaixo:

sábado, 10 de outubro de 2009

Torcendo pelo pior

Outro dia estava assistindo Stock Car Brasil na televisão e curiosamente me peguei torcendo por uma batida, um acidente, uma rodada. Torcendo, enfim, pelo pior. Não que isso seja exclusividade minha. Os americanos assistem à NASCAR, a stock car americana, torcendo por um evento catastrófico e vibrando com ele, contanto que ninguém se machuque seriamente. Não é que sejamos pessoas ruins. É uma reação apenas humana.

Em "Três Usos da Faca", excelente livro do cineasta americano David Mamet sobre as estruturas dramáticas e como nós, seres humanos, nos relacionamos com elas, Mamet diz que procuramos sempre trazer o drama para nossas vidas. Quando nos relacionamos com o mundo, automaticamente procuramos enquadrá-lo em uma estrutura e nos identificamos com os protagonistas e com suas ações por intermédio de suas características humanas. E não há nada mais humano do que o erro.

Por isso o esporte é dramático por natureza, mesmo que a maioria de seus eventos se organizem em mais ou menos atos do que os três da estrutura aristotélica clássica.

Talvez esteja aí explicado o sucesso de público das categorias de stock car, onde os carros são mais equilibrados, mais numerosos, os pilotos podem se tocar e estão muito mais propensos a errar, especialmente se compararmos às corridas de monoposto, como a F-1.

Torcemos pelo acidente, pelo erro e pela batida não pelo possível efeito plástico que será capturado por inúmeras câmeras de alta definição e que veremos diversas vezes em câmera lenta. Torcemos pelo pior para nos aproximar dos protagonistas, nos identificarmos com eles num nível mais essencial, nos colocarmos em seus lugares e para, como sempre, tentar colocar um pouco mais de drama em nossas vidas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Na ponta da cadeia

O discurso de produtores, roteiristas e diretores presentes no RioMarket está afinado: precisamos de mais filmes de sucesso para fortalecer o cinema nacional. E para isso, não existe fórmula secreta. O que faz diferença é um produto de qualidade. E no caso do cinema e do audiovisual em geral, isso começa invariavelmente com uma boa história. Sem um bom roteiro, nem o mais talentoso dos diretores é capaz de fazer um bom filme.

É aí que surge parte do problema do mercado cinematográfico nacional: é difícil encontrar boas histórias. Não é que não tenhamos roteiristas competentes ou talentosos. Muito pelo contrário, temos excelentes profissionais e poucas oportunidades. Isso porque, segundo representantes das maiores produtoras do cinema nacional, eles estão estrangulados financeiramente. Por isso, sobram poucos recursos para investir no desenvolvimento dos projetos, o que faz com que roteiros crus e, em alguns casos, até mesmo roteiros ruins cheguem aos cinemas brasileiros, o que é ajudado, em parte, por conta de uma política de incentivos que, durante muito tempo, não deu nenhuma importância aos resultados nas bilheterias.

Depois que um projeto se inicia, custa muito caro abandoná-lo, mesmo que aquela história não vá render tanto quanto deveria. Do mesmo modo, custa muito caro pros produtores, na atual situação, bancar o desenvolvimento dos projetos durante um grande período de tempo. Um roteiro de cinema é como uma pedra preciosa, que tem que ser lapidado até chegar ao ponto de ser filmado. Isso demanda tempo e profissionais de qualidade. E esses dois fatores custam dinheiro.

Outra questão é que, sem a devida atenção aos roteiristas, fica mais difícil formar novas gerações de profissionais especializados nesse segmento da indústria cinematográfica. E parece estar bem claro para todos os envolvidos que precisamos cada vez mais desses profissionais.

Só pra se ter uma ideia, um dos palestrantes do RioSeminars citou o cinema americano como exemplo de desenvolvimento de projetos. Lá, para cada filme que chega aos cinemas, os grandes estúdios desenvolvem, em média, 50 projetos. É claro que essa peneira ainda deixa passar roteiros de qualidade duvidosa, mas certamente contribui para o sucesso comercial da cinematografia dos EUA no resto do mundo.

Ainda falando em números, uma rápida consulta ao site da WGAW (Writers Guild of America - West), um dos dois sindicatos que regulam a profissão de roteirista naquele país, permite verificar que no ano de 2008, 1.716 roteiristas declararam ter trabalhado nos 610 filmes lançados nos EUA naquele ano. No Brasil, em 2007, segundo dados da ANCINE (os de 2008 ainda não estão no site), 78 longametragens chegaram às salas de cinema. A ARTV (Associação Brasileira de Roteiristas Profissionais de TV, Cinema e outros Meios de Comunicação) tem cerca de 100 associados. Mesmo não sendo obrigatório ser filiado à ARTV ou ao STIC (Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica) para trabalhar na área, não acredito que esses 78 filmes tenham empregado mais que 150 roteiristas no ano de 2007.

Numa indústria, temos empregados especializados em funções definidas. Essa é a base dos modernos sistemas de produção e agora o audiovisual brasileiro parece estar começando a se preocupar com isso. Todos almejam fazer produtos de qualidade para obter o desejado sucesso comercial, o que é louvável. Para isso, é preciso investir na ponta da cadeia produtiva, no profissional que entrega aos seus companheiros a matéria prima com a qual bons filmes são feitos. Sem investir no desenvolvimento de roteiros, é impossível criar uma indústria audiovisual forte e saudável no Brasil. Ou, na minha opinião, em qualquer outro lugar do mundo.

PS.: O site da ARTV tem um texto de interesse sobre o assunto tratado por esse post. Clique aqui para acessar.

Precisamos de cinema pipoca

Estive na última semana envolvido com o Festival do Rio. Quase não assisti a nenhum filme, mas procurei participar ativamente do RioMarket, o evento paralelo que discute negócios e o mercado do audiovisual nacional e internacional. Acho de fundamental importância discutirmos o cinema brasileiro para que possamos construir um futuro melhor para ele e, por tabela, para nós, profissionais da área.

Os três primeiros dias do evento foram abertos a quem se inscrevesse com antecedência pela internet e, para minha surpresa, estavam relativamente vazios.

O primeiro dia teve como tema o financiamento do audiovisual, com destaque para a apresentação do presidente da ANCINE, Manoel Rangel. Ele descreveu com muito eloquência o panorama do mercado brasileiro atual e, principalmente, demonstrou ter visão de pra onde ir a seguir. Foi muito interessante também a apresentação do Rio Audiovisual, um ambicioso programa de revitalização e incentivo a audiovisual carioca, parceria da Secretaria de Cultura do Estado e de uma renovada RioFilme, sob o comando do competente Sérgio Sá Leitão.

O segundo dia trouxe representantes de duas das maiores produtoras nacionais, a Conspiração Filmes e a Total Entertainment, além de Paula Lavigne, uma produtora independente de peso no cenário nacional. Eles se revezaram para falar dos filmes de sucesso no Brasil nos últimos anos. O sábado ainda contou com uma mesa intermediada por Rodrigo Fonseca, em que Mariza Leão, produtora e roteirista, e René Belmonte, roteirista, falaram sobre escrever filmes de sucesso no Brasil.

O terceiro dia foi mais voltado para a televisão, com representantes da Globo e da Record discutindo como escrever o que o espectador quer ver e como produzir sucessos de audiência. Destaque para a presença de Roberto Farias, híbrido de cineasta e homem de TV, segundo palavras do próprio.

O que ficou desses primeiros dias de discussão é que, se quisermos ter uma indústria cinematográfica auto-sustentável e saudável, capaz de produzir em quantidade e qualidade e de absorver a mão de obra disponível no mercado, temos que investir em filmes que tragam retorno financeiro. É reinvestindo esses recursos no mercado que iremos transformar a realidade atual. Precisamos de filmes de sucesso. Precisamos de blockbusters.

PS.: A fotografia que ilustra o post é da galeria do Festival do Rio no Flickr. Lindas fotos. Confiram.

domingo, 23 de agosto de 2009

Séries adotivas

Outro dia conheci uma pessoa que acompanha E.R. desde a sua primeira temporada. Ela acompanha a série há 15 temporadas e disse que conhece os personagens há mais tempo do que o próprio marido, o que provavelmente é verdade se considerarmos que o seriado estreou em 1994 na TV americana.

O objetivo de um bom seriado de TV, mais do que nos filmes, eu diria, é fazer com que nos identifiquemos com os personagens. Eventualmente, ao longo das temporadas, nos afeiçoamos ao agente do FBI que acredita numa conspiração do governo para esconder a existência de alienígenas, ao amigo galanteador que nunca deixa passar uma oportunidade de cantar alguém e que vive roubando comida da geladeira dos amigos e até ao carteiro arqui-inimigo de um comediante standup.

São anos de convivência, nos envolvendo em suas existências com um nível de detalhes que não nos é reservado nem mesmo pelos nossos melhores amigos na vida real. Isso se tivermos a sorte de manter esse amigo por perto ao longo de tantos anos, o que é cada vez mais difícil nesse mundo onde as coisas acontecem e 'desacontecem' com a mesma rapidez.

O que é que fazemos quando perdemos alguém? Quando termina um relacionamento amoroso, quando um amigo se muda pra outro país? Normalmente há um período de luto e, depois de um tempo, você parte pra outra.

Confesso que fiquei arrasado quando Friends, Arquivo X e Seinfeld, principalmente, chegaram ao fim. Então decidi dar um tempo. Tive um envolvimento rápido com Heroes, Monk, CSI, Big Bang Theory e outras aqui e ali que eu prefiro nem mencionar. Nada sério, eu juro. Exceto Lost e House.

Eventualmente assisti How I Met Your Mother e conheci Ted Mosby e seus amigos. Aos poucos, deixei de sentir tanta falta de Friends. As referências aos amigos não são poucas, como o emprego misterioso do Barney (vai me dizer que vocês esqueceram a running joke sobre o trabalho do Chandler?), mas nem de longe são o que define o programa. Acabei viciado nesse seriado que consegue ser (muito) engraçado, misturar a isso um pouco de romance e drama e ainda tratar alguns temas de forma mais adulta do que aquele dos seis amigos inseparáveis.

Depois, o J. J. Abrams, que já tinha me balançado com Alias e me fisgado com Lost, acertou mais uma vez com Fringe, ocupando o espaço vazio deixado pelo Agente do FBI Fox Mulder e sua parceira, Dana Scully. Olivia Dunham, a protagonista de Fringe, está a frente de uma equipe incomum que investiga estranhos fenômenos conectados ao que parecem ser ataques terroristas. A série não só consegue parecer (um pouco) mais verossímil, como tem personagens muito interessantes e tramas intrigantes. Tem tudo pra cair no gosto dos abandonados fãs de um seriado que marcou época, mas terminou já sem o brilho das primeiras temporadas.

Por último, nem tudo na vida são flores e por isso, vou ser sincero. Lamento dizer que jamais encontrei algo à altura de Seinfeld. Acho que tem certas coisas que não tem como substituir, não é? O que nos resta é a esperança de que um dia surja um sitcom que consiga retratar a nossa sociedade de forma tão irreverente e original e nos divertir falando sobre o nada. Enquanto isso, vou aproveitando esses programas que, como séries adotivas, não julgo melhor nem pior do que aquelas que substituíram em meu coração. Eu as amo do mesmo jeito, garanto.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Muito além de televisão

Na última semana, Globo e Record levaram a disputa saudável que vêm travando pela audiência da televisão brasileira a um outro nível.

Depois que o Jornal Nacional deu destaque às acusações do Ministério Público paulista contra o Bispo Edir Macedo e a cúpula da Igreja Universal e citou a Rede Record na reportagem, essa disputa ficou franca e aberta como nunca antes. A Record reagiu através de seus telejornais, fazendo críticas diretas e acusações um tanto conspiratórias à Rede Globo.

A sua última cartada foi comprar o polêmico documentário Muito Além do Cidadão Kane. Produzido em 1993 para o Channel 4 britânico, ele acabou se tornando um filme 'cult' e foi bastante divulgado e assistido numa época em que filmes circulavam através de cópias em VHS, e não pela internet.

Segundo reportagem da Folha Ilustrada, a Record comprou os direitos do filme, através do produtor John Ellis, por meros US$ 20 mil. Apesar de não poder exibir todo o documentário por questões que envolvem direitos autorais de imagens da Globo contidas no filme, a emissora do Bispo Macedo pode exibir os trechos autorais do mesmo.

Apesar de ser contra misturar religião e comunicação, não tenho nada contra a Rede Record e acho admirável que ela venha fazendo esforços pra concorrer com a programação da Globo de igual pra igual, produzindo seriados e novelas em uma escala em que só a concorrente fazia até pouco tempo atrás.

Como em todo país democrático com liberdade de expressão e livre mercado, quando duas empresas dessa magnitude iniciam uma disputa como essa, geralmente o consumidor, nesse caso o espectador, pode tirar algo de positivo do processo, se for capaz de pensar de maneira crítica.

Sendo assim, já que a Record não pode exibir o documentário sobre Roberto Marinho na íntegra, eu o faço. Não para tomar partido, apenas para exercer o meu direito de poder fazê-lo.


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Formando Super Condutores

As últimas duas semanas foram ocupadas com um trabalho freelancer de câmera e edição para um projeto chamado Movimento Yamaha, que visa levar a adolescentes do ensino médio que estudam em escolas públicas uma peça encenada por quatro atores que chama atenção para a educação no trânsito de maneira descontraída.

O job consistia em filmar seis apresentações em escolas públicas da rede estadual e editar um clipe de aproximadamente quatro minutos, que você pode conferir a seguir.



Fiquei satisfeito com o resultado final e impressionado com a falta de estrutura na maioria das escolas que visitamos. Agora é voltar para o 'Retrato de Família' para concluir o terceiro tratamento do roteiro de longametragem.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

What are you doing?

O que você está fazendo? Agora, nesse exato momento... Navegando na internet, passando o tempo sozinho em casa, enrolando no trabalho enquanto o chefe não olha, preso no trânsito?

É essa pergunta, um tanto invasiva, que norteia o serviço mais popular da internet no momento, o Twitter. O serviço de microblogging ganhou no último ano uma popularidade incrível e teve um crescimento que, dependendo da fonte consultada, passa de astronômicos 1300%. A resposta, sincera ou não, pertinente ou não, só tem uma regra estabelecida: não pode ultrapassar os 140 caracteres. É claro que já há todo um código, uma etiqueta, digamos assim, estabelecida entre os usuários, mas isso é outra história.

O meu interesse aqui não é promover o Twitter, até porque eles certamente não estão precisando, mas sim levantar um questionamento que surgiu com força quando as primeiras redes sociais (Orkut, MySpace, Facebook) ganharam força e grande número de usuários.

É evidente que abusos e exageros sempre irão ocorrer quando a ideia é criar um perfil sobre você, incluindo os seus gostos e as pessoas com quem você se relaciona, ou responder à famigerada pergunta do Twitter, mas o fato é que, independente do quão invasivas essas ferramentas possam nos parecer, somos nós mesmos os responsáveis por alimentá-las com as nossas informações e assim, disponibilizá-las para, virtualmente (e aqui essa palavra ganha mais de um sentido), o mundo inteiro.

Pra mim, a questão não é a ferramenta. A ferramenta em discussão aqui é o Twitter, mas poderia ser uma infinidade de outras mídias, serviços ou dispositivos que mediam as relações humanas na contemporaneidade, como os telefones celulares. Pouco tempo atrás, o Google lançou o Google Latitude, um serviço que se utiliza dos dispositivos de posicionamento global (GPS) incluídos em muitos aparelhos para compartilhar com seus amigos (ou contatos), a sua localização naquele momento. Pode parecer algo mórbido, pois detestamos a noção de estar sendo vigiados o tempo todo. Mas pode ser também algo interessante, dependendo apenas da maneira como se olha para a ferramenta em questão. Se poderia servir para um cônjuge ciumento rastrear a sua amada cara metade e ter certeza de que não está sendo traído, poderia também proporcionar o encontro casual para um almoço entre dois amigos que estão próximos geograficamente por obra do acaso, mas não tem a menor noção disso.

A questão da fronteira entre o privado e o público, cada vez mais tênue, também é relativa, se pensarmos que nós, humanos, seres sociais, voluntariamente tornamos pública parte de nossas vidas privadas como maneira de nos expressar, de nos relacionarmos uns com os outros e de criar e reforçar vínculos. E isso acontece desde sempre, nem estou falando dessa ou daquela mídia. Usando desde desenhos nas paredes irregulares das cavernas a smartphones de última geração, compartilhamos experiências pessoais com o coletivo. Muitos dos nossos rituais são dedicados a esse propósito. O que seria o casamento, se não uma maneira de expressar publicamente algo que provavelmente está entre o que de mais privado pode haver, que é o amor entre duas pessoas?

Acho que qualquer um que já tenha declarado seu amor por outro publicamente, falado mais do que deveria em uma reunião de trabalho ou passado um vexame diante de um grupo de conhecidos, provavelmente entenderá quando eu digo que não acho assim tão nocivo responder àquela pergunta:

Postando uma reflexão sobre o Twitter no meu blog.

Pronto. Nem doeu.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Crítica:: O curioso caso do Curioso Caso de Benjamin Button

De fato esse filme é algo estranho. Após assistí-lo, me peguei ponderando como pode um filme ser bom e ao mesmo tempo não agradar. A premissa da história, alguém que nasce velho e rejuvenesce até morrer é original, traz um elemento fantástico, é intrigante. No entanto, quando você assiste a todos os longos 166 minutos do filme percebe que essa premissa não se mostra capaz de sustentar o belíssimo filme de David Fincher por todo esse tempo.

Fincher de fato realizou um filme estética e tecnicamente perfeito. Muita gente dizia que era um filme com cara de ganhador de Oscar. Certamente o filme fez por merecer os três Oscars que ganhou: Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem e Melhores Efeitos Visuais. Isso sem mencionar uma outra dezena de indicações para o prêmio máximo da Academia. Destaco a fotografia do chileno Claudio Miranda, que é belíssima, um exemplo do melhor da capacidade técnica de um fotógrafo.

David Fincher faz um bom trabalho como diretor e o elenco é de primeira. Brad Pitt (indicado ao Oscar de Melhor Ator) está impecável e atua com uma naturalidade tal que você esquece que é um ator na tela. Cate Blanchett é uma grande atriz e tem uma qualidade rara no ramo: consistência. Não importa se é o drama mais profundo ou a aventura mais superficial, ela consegue sempre uma boa atuação. Taraji P. Henson, que interpreta Queenie, a mãe adotiva de Benjamin, também esteve excelente e mereceu a indicação como Atriz Coadjuvante. Se fosse um ano menos concorrido, talvez tivesse até ganho.

OK. Então o que é que falta ao filme? O que sobra em forma, falta um pouco no conteúdo. Apesar de também ter sido indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, O Curioso Caso de Benjamin Button tem um roteiro que não está a altura do restante do filme, na minha opinião. Não que o o roteiro do premiado Eric Roth (o mesmo de Forrest Gump) não seja bom. Como disse antes, a premissa, o fato que move a história, adaptada de um conto da década de 1920 de F. Scott Fitzgerald, é muito bom. Quem é que nunca se perguntou como seria ter a energia de um jovem após viver uma vida inteira, ou a sabedoria de um velho para evitar os tropeços da juventude? Mas o fato é que, ao longo de duas horas e quarenta e seis minutos de filme, são poucas as vezes em que você vê o fato de Benjamin Button estar vivendo a vida ao contrário realmente ter um impacto na trama, no desenrolar dos acontecimentos. No original, há mais conflito, mais crítica social e à natureza humana. No conto, Button nasce velho mental e fisicamente e regride em ambos os aspectos enquanto no filme há uma dicotomia entre os dois: ele é uma criança em um corpo de velho e um velho no corpo de uma criança. O filme acaba sendo então uma enorme biografia de um homem com uma peculiaridade e um grande romance entre Benjamin e Daisy, cheio de encontros e desencontros. Por último, usar a tragédia do furacão Katrina em Nova Orleans como pano de fundo para o presente da história, contada através de flashbacks, foi forçar a barra pra ganhar a simpatia do público americano (e talvez da crítica).

O Curioso Caso de Benjamin Button não deixa de ser um bom drama, mas a sensação que eu tenho é de que poderia ser muito mais.

Outras opiniões +

'O Curioso Caso': Brad Pitt em fábula para todas as idades (Tom Leão - Blog do Bonequinho)

Brad Pitt vive de trás para frente em 'O Curioso Caso de Benjamin Button' (Débora Miranda - G1)

'O Curioso Caso de Benjamin Button' vai da fantasia ao drama (Neusa Barbosa - Cineweb)

'O Curioso Caso de Benjamin Button' (Angélica Bito - Yahoo! Cinema)


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Fotografia:: Debaixo d'água

Por enquanto fui só eu. Mas em breve, quero levar minha câmera pra lá também e descobrir essa nova perspectiva na fotografia. Fui mergulhar em Arraial do Cabo no último final de semana de Março. Já tinha mergulhado algumas vezes antes com snorkel, nunca com cilindro.

Fiz um mergulho de batismo, aquele onde um instrutor te acompanha o tempo todo e cuida da maioria dos aspectos mais complexos do mergulho, como o controle da flutuabilidade e a orientação no fundo do mar, o que é bem difícil. É muito estranho estar em um ambiente onde você pode se movimentar de verdade em três dimensões. Acho que antes disso eu só tinha experimentado isso em ambientes virtuais mesmo.

O resultado é que eu adorei e em breve farei um curso de mergulho open water, que é o básico, onde se aprende a lidar com o equipamento e os procedimentos operacionais e de segurança mais elementares pra começar a mergulhar. A outra coisa que está nos planos é comprar uma caixa estanque e levar a minha Nikon D40 comigo. De preferência com o flash também. Tinha alguns mergulhadores com câmeras compactas em caixas estanque de pequeno porte e a gente trocou idéias sobre a fotografia subaquática, que eu acho simplesmente espetacular.

Alerta! Daqui pra frente o post é mais técnico. Se você não saca muito de fotografia pula pro final pra ver a outra foto.

Num fim de semana de folga, levei a câmera pra registrar a viagem e o mergulho. Então relaxei e deixei mesmo as escolhas técnicas por conta da minha câmera, no modo P (Programa) e o ISO no 800, pra poder registrar o interior do barco com mais clareza e sem precisar usar o flash ou me preocupar com a velocidade do obturador na sombra (e com menos luz, porque estava nublado).

A primeira imagem, que é de um par de instrumentos (profundímetro e nível de ar comprimido no tanque), foi tirada com a lente zoom na posição 135mm (200mm equiv.), f 5,6 e t: 1/160.

A segunda é de um cilindro de ar comprimido e foi tirada com distância focal de 70mm (105mm equiv.), f 5,6 e t: 1/500.


Quem quiser conferir mais do meu trabalho como fotógrafo basta clicar aqui e acessar meu porfolio online.