domingo, 6 de junho de 2010

Novos Rumos


Eu sinceramente não me lembro exatamente quando foi a primeira vez que eu acessei a internet. Devia ter uns 13 anos e, fazendo as contas, isso aconteceu nos idos de 1995. Naquela época eu não poderia fazer ideia dos rumos que tomaria a rede mundial de computadores, inicialmente concebido para uso militar, como tantas outras tecnologias.

Nos últimos 15 anos, tanto eu quanto a internet trilhamos caminhos inusitados. Ela, diziam os mais pessimistas, afastaria as pessoas e criaria uma geração de jovens ainda mais alienados do que aqueles que cresceram diante da televisão. No entanto, hoje a internet é fonte quase infindável de informação e referências legítimas, além de conectar pessoas no mundo inteiro, especialmente através das redes sociais. Eu cursei publicidade, me apaixonei por fotografia e decidi estudar cinema.

A banda larga nos reaproximou e, como roteirista e profissional de comunicação, comecei a passar cada vez mais tempo diante do computador e conectado à internet. Fui fisgado pelas redes sociais e confesso que o Twitter é, na minha opinião, uma das coisas mais interessantes que aconteceu na rede.

Desde o começo do ano, expandi meus horizontes profissionais e a definição da minha ocupação se tornou um tanto etérea. Me tornei um criador de conteúdo, independente do meio. E certamente o meio mais democrático e repleto de oportunidades é a internet. Esses novos rumos em termos de carreira foram consolidados há 3 semanas, quando me tornei de fato um redator web e analista de social media. Os desafios diante de mim são tão grandes quanto a própria rede, assim como o meu entusiasmo, já que ganhar a vida criando para esse meio tão extraordinário, é um enorme prazer.

Em tempo, a imagem que ilustra o post é um mapa que leva em conta a densidade da conexão à rede no mundo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sobre romance, poesia e realidade

Apesar de não ser um leitor assíduo de poesia, sempre gostei desse gênero literário precioso e já até me aventurei por ele algumas poucas vezes.

A poesia transcende a realidade e arranja palavras para criar significados que não existem numa prosa comum. Talvez por isso, tenha se tornado um clichê questionar se a realidade acaba com a poesia. Eu proponho pensarmos no inverso: será que a poesia não acaba com a realidade?

Há algumas semanas, assisti numa sessão dupla, Antes do Amanhecer e Antes do Por do Sol dois ótimos filmes de Richard Linklater. Separados por um hiato de nove anos pra quem assistiu o primeiro filme em 1995, pra mim eles são uma coisa só, contínua. Foi assistindo a esse conjunto que me dei conta do quanto a poesia pode ser destrutiva na prática. Quando me refiro à poesia, no entanto, estou falando de toda idealização, de toda construção romântica, de toda criação de um universo fantástico, de tudo que representa algo mágico e intangível.

Em Antes do Amanhecer, o personagem de Ethan Hawke conhece a personagem interpretada pela encantadora Julie Delpy durante uma viagem de trem na Europa. Tomado por um lampejo de coragem que faz inveja a todos que deixaram um oportunidade passar na vida, Jesse convida Celine para uma aventura: passar a noite juntos, andando sem rumo por Viena, até a manhã seguinte, quando ele voará de volta pros EUA. Ela aceita e os dois vivem uma noite mágica, passeando por uma cidade deslumbrante, se conhecendo, encontrando personagens estranhos e se apaixonando um pelo outro. Ao final da noite, o inevitável acontece e os dois tomam caminhos diferentes, com a promessa de que se encontrarem no mesmo lugar, em exatos seis meses.

Enquanto muita gente esperou anos pela continuação do filme para saber o que aconteceu a Jesse e Celine, esperei minutos para descobrir que os dois não se encontraram seis meses depois. Em Antes do Por do Sol, Jesse está em Paris para divulgar um romance que conta a história que viveu em Viena e Celine acaba encontrando ele. O que parece ser acaso, vai se revelando um encontro premeditado à medida que os dois colocam o assunto em dia e eventualmente confessam um ao outro que nunca tiraram aquela noite de suas mentes. E que não conseguiram ser felizes, em grande parte, por conta disso. O filme, curto, nos delicia com esse reencontro para, mais uma vez, deixar o final em aberto.

Ao final dos dois filmes, fica a pergunta: e se eles não tivessem tido a noite em Viena? A responsabilidade de superar algo tão mágico, tão irreal, tão poético, certamente é grande demais para qualquer um e esmagadora para um relacionamento em que se vivem as pequenas alegrias do cotidiano, mas também os percalços. É impossível se comparar àquela noite. É impossível se comparar à poesia e ao romance. É impossível se comparar à felicidade dos comerciais de margarina (que são, confesso, o meu ideal pessoal de felicidade). Será que a poesia não acaba destruindo a realidade? Será que, sem parte das idealizações românticas e das enormes expectativas que todos carregamos, não seríamos mais felizes no mundo real? Ou será que o mundo real e os relacionamentos não teriam a menor graça sem tudo isso? Se um dia eu tiver a resposta, prometo compartilhar.

terça-feira, 20 de abril de 2010

I'll be alright...


O que se faz com uma tarde livre, um apartamento vazio, uma câmera fotográfica, um tripé e um controle remoto?

A resposta está nessa série de auto-retratos que eu fiz e postei no meu Flickr. A imagem do post é a primeira de um total de sete. Espero que vocês curtam.


sábado, 10 de abril de 2010

Criando conteúdo pra internet

Desde o mês passado, venho trabalhando em um projeto como redator web freelancer. A ideia era lançar alguns blogs e começar a criar conteúdo para uma agência digital. Os dois primeiros blogs que entraram no ar foram o Tomada8 e o #NOPS.

O Tomada8 me deu a possibilidade de escrever sobre duas das minhas maiores paixões: o cinema e as séries de TV. Com posts diversos sobre as produções e
lançamentos do audiovisual no Brasil e no mundo, o site é uma boa pedida pra quem deseja se manter atualizado e saber o que assistir no final de semana na telona ou no horário nobre das noites de segunda à sexta.

Escrever pro #NOPS é simplesmente um exercício de criatividade e tem sido um enorme prazer. Com uma proposta similar ao do site americano The Onion, a ideia do blog é criar notícias fake, seja para criticar, tornar realidade aquilo que gostaríamos que fosse verdade ou simplesmente pra nos divertir lendo as matérias e compartilhando com os amigos mais desavisados.

Além das páginas, você pode encontrar e compartilhar o conteúdo dos dois blogs no Twitter e no Facebook.

Para acessar os sites, basta clicar nos thumbnails que ilustram o post.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Crítica:: A Desbiografia de Manoel de Barros

No dia 14 de Janeiro, apenas quatro dias antes do meu aniversário, tive o privilégio de assistir o documentário Só Dez Por Cento É Mentira - A Desbiografia Oficial de Manoel de Barros numa sessão do Folha Documenta, no Cine Bombril, em São Paulo. Passei as duas últimas semanas entre a correria do dia-a-dia de quem acabou de se mudar e a sensação inquietante de não conseguir encontrar as palavras certas para escrever sobre esse filme. Foi aí que percebi que, se é que aprendi algo com esse filme de título intrigante que conta a história desse fantástico poeta sul-matogrossense, é que não existem palavras certas.

Pra começar, enquadrar o filme em uma classificação é um desafio. Diria que o filme do diretor Pedro Cezar foi classificado como documentário quase que por eliminação. Extremamente criativo, como a figura que retrata, o filme é mais do que isso. Me arrisco a dizer que o longametragem de 76 minutos de duração carrega consigo um pouco da personalidade do recluso Manoel de Barros. O filme é inventivo, lúdico e bem humorado, mas principalmente, não se restringe a nenhum dos paradigmas dos gêneros cinematográficos. Os realizadores se permitiram romper esses limites e esse talvez tenha sido o seu maior acerto.

Mas nem de longe foi o único. Muito pelo contrário. Só Dez Por Cento é Mentira é de um apuro visual fantástico. Ele flerta com a poesia visual sem se tornar hermético e apresenta a obra do poeta como ela foi concebida: pra ser lida, em inserções de texto, sem narração. A impecável direção de arte de Marcio Paes e a belíssima fotografia de Stefan Hess compõem esse ambiente onírico onde o sentido das palavras (e das imagens) é muito menos importante do que elas mesmas. A fotografia, a poesia de Manoel de Barros e as entrevistas são costuradas pela música de Marcos Kuzka, que conduz o espectador sem influenciá-lo demais.

Confesso que não conhecia a poesia de Manoel de Barros. E confesso que, apesar do prêmio de Melhor Documentário conquistado pelo longa no II Festival Paulínia de Cinema, pouco tinha lido sobre o filme. Talvez esses dois fatores tenham tornado essa experiência (por falta de uma palavra melhor) ainda mais interessante. Para um sujeito pragmático como esse que vos escreve, a proposta do poeta de transver o mundo é fascinante. Um sujeito que comparece aos próprios desencontros merece o nosso respeito e admiração. Fui assistir um documentário e acabei levando uma verdadeira lição que me mostrou o quanto enxergamos o universo que nos cerca de maneira pequena e pouco generosa. Assistir a um filme que não só registra a obra de Manoel de Barros, mas que se investe dela e que a incorpora para retratá-la só torna a experiência ainda mais interessante. Só Dez Por Cento É Mentira - A Desbiografia Oficial de Manoel de Barros deveria ser obrigatório para crianças e adultos de todas as idades.

Em tempo, a imagem que ilustra o post está disponível para download no site oficial do filme. A página do Facebook também merece uma visita.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Na metrópole

Sou um sujeito urbano. Amo a metrópole e tudo de superlativo que ela abriga entre um edifício e outro, debaixo de seus viadutos e dentro de seus túneis. A metrópole me faz sentir mais personagem de filme. Se sentir tão pequeno diante das construções, ser uma parcela tão ínfima de uma população gigantesca, traz uma insuspeita sensação de liberdade que nenhum autor daquelas ficções científicas mais tenebrosas poderia ter previsto em seus contos. Talvez por isso tenha nutrido o desejo de trocar o Rio por São Paulo. Ainda não é de maneira definitiva, mas há 15 dias, acabei fazendo essa mudança. Troquei a cidade maravilhosa e toda a sua beleza natural de cartão postal pela selva de pedra que abriga o coração financeiro do país, que é o que a maioria dos imigrantes procura quando vem pra cá.

Mas não é só no campo profissional que se pode ter um ganho em São Paulo. Ganha-se em cultura, numa cidade repleta de museus e centros culturais e cuja arquitetura prova que o formato supostamente retangular da maioria de suas construções ainda deixa espaço para engenheiros e arquitetos conceberem belas obras de arte. Ganha-se em diversidade de programas, de atividades, de gente, de hábitos e costumes nessa verdadeira babel que nunca para. Um dos 'problemas' da capital paulista é que sempre há algo pra se fazer. Ganha-se no sentimento de solidariedade e cortesia surpreendente para uma cidade desse porte. Pode ser que eu esteja enganado e que essa seja uma visão romanceada de quem acabou de chegar, mas mesmo reconhecendo os defeitos dessa cidade que é o lar de mais de 11 milhões de pessoas, ainda sou capaz de enxergar muitas coisas positivas nessa cidade que, de tão monstruosamente grande, acaba se tornando fascinante para seus novos habitantes.

A fotografia que ilustra o post foi tirada por mim do topo do Edifício Itália, o prédio mais alto de São Paulo, onde se tem uma vista magnífica da cidade.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um sonho bom

Como numa colagem cinematográfica, as imagens da minha vida vão se sucedendo cada vez mais rápido até que, como uma lâmpada fluorescente, tremulam rapidamente até se apagar por completo.

Acordo e parte de mim já sabe onde estou. O ambiente é gelado. O chão, as paredes, o teto, tudo é construído em aço inoxidável. O lugar é impecavelmente limpo. Mais do que isso, iluminado em excesso por luzes frias, ele é estéril. Não há cheiro, não há uma corrente de ar sequer. Muito diferente do que eu esperava, de tudo que já tinha lido. Isso o tornava ainda mais inquietante.

Visto apenas um avental verde claro, como esses que se usam em hospitais, e sinto frio. Estou de pé, numa longa fila que se estende por um corredor que não parece ter fim. Todos parecem apreensivos. Ninguém conversa. O silêncio só é interrompido pelos gritos. Tento de todas as maneiras ver o que acontece adiante, mas é impossível enxergar o que me espera. A ansiedade toma conta de mim. Cada silêncio se torna mais pesado e não consigo encontrar uma brecha para rompê-lo.

A fila não anda num ritmo previsível. A expectativa só faz piorar o frio, o tédio e a ansiedade, cada vez mais insuportável. Fico me perguntando o que eu teria feito para estar ali. Cada ação egoísta, cada decisão inconsequente que tomei, todas as vezes em que poderia ter sido mais gentil, mais amoroso, aquele tênis que comprei mesmo sabendo que foi fabricado por crianças em regime de semi-escravidão na Indonésia, tudo isso me passa pela cabeça. Não há nenhuma falta grave. Talvez seja apenas a soma desses pequenos delitos. E se for uma alguma coisa da qual eu nem lembro? Bem capaz de não ser nada disso, afinal ninguém sabe ao certo quais são os critérios.

Sou o próximo. Meu nome completo é chamado, de forma cordial. Caminho e me deito em uma cama de metal, pensando em todas as perguntas que gostaria de fazer. Mas não há respostas. Apenas procedimentos, regras, o sistema. Meu inferno é frio, estéril e burocrático. Um homem de aparência profissional se aproxima. Cuidadosamente prepara seus instrumentos de trabalho. Com a precisão e a assepsia que poderia se esperar de um cirurgião competente, ele me tortura enquanto cantarola uma música.

Não é tão ruim quanto eu achava que seria. E nem de longe tão ruim quanto a ansiedade de aguardar sem saber o que está por vir, de tentar em vão encontrar uma explicação racional para o porquê de estar ali. Nem sinto mais medo. Já acabou. Droga, a música ficou na minha cabeça.

Abro os olhos e estou no meu quarto. Me sentindo seguro, acordo com um estranho sorriso de satisfação no rosto. Para o meu próprio espanto, assobio uma canção. É... parece que essa noite tive um sonho bom.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crítica:: Falta humanidade em Inimigos Públicos

Gosto muito dos filmes de Michael Mann, seja pela estética visual, herdada dos film noir, seja por sua capacidade de dirigir cenas de ação. Mann é o melhor diretor de cenas de tiroteio que já vi e por isso, esperava bastante de um filme de gangsters dirigido por ele. A presença de Johnny Depp, Christian Bale e a ganhadora do Oscar Marion Cotillard também ajudaram a elevar as expectativas em relação ao longa que conta a história real do mais famoso assaltante de bancos da América, John Dillinger. A ação está lá, mas a trama é confusa, demora a engrenar e não conseguiu me conquistar.

A estética de Mann se faz presente no filme. A fotografia de Dante Spinotti é excelente. Visualmente, o filme é interessante pela escolha de enquadramentos menos convencionais e pelo uso da câmera na mão. Esse recurso ajuda a nos inserir na ação, mas o diretor abusa dele e acaba criando uma linguagem moderna demais, que entra em conflito com o contexto histórico do longametragem. Certamente não vai agradar a audiência mais conservadora.

As cenas de ação, entre fugas, perseguições e tiroteios, estão entre os pontos altos do filme e reafirmam essa especialidade de Mann. Não somente ele encena e coordena a ação de modo eficiente, como tem o know how, essencial, diria, de como posicionar as câmeras para tirar o melhor daquela cena. A primeira seqüência do filme e o grande tiroteio entre John Dillinger, Baby Face Nelson e seus comparsas e Melvin Purvis mais os agentes do FBI são exemplos dessa especialidade de Michael Mann enquanto diretor.

Mas, se Inimigos Públicos tem ação e estética convincentes, o que falta mesmo é um roteiro melhor. O próprio Michael Mann, Ann Biderman e Ronan Bennett adaptaram o livro de Bryan Burrough em um roteiro em que falta ritmo e personagens consistentes. Parece que estamos diante de uma seqüência de fatos históricos reconstituídos diante da câmera inquieta do diretor. Fatos esses que por vezes mal parecem estar conectados, a não ser por Dillinger. Não há uma ação dramática que norteie a trama. A grande quantidade de personagens é difícil de acompanhar e mesmo os protagonistas, jamais ganham a importância e profundidade que merecem. Tanto é que em momento algum nos identificamos com eles ou nos importamos com seu destino, já traçado, evidentemente.

Ainda assim, Johnny Depp, Christian Bale e Marion Cotillard fazem o melhor que podem, com Bale se destacando no papel de Melvin Purvis, o homem encarregado de capturar Dillinger, e Depp repetindo com propriedade a irreverência que o marcou em outros papéis de sucesso. O problema é que talvez pelo fato de seus personagens terem sido reais, o espaço para a construção deles tenha sido um tanto limitado. Não deixa de ser irônico a preocupação com a veracidade tê-los deixado falsos na tela grande.

Inimigos Públicos acerta na parte técnica, mas peca pela falta do componente humano, o que faz com que você assista a mais de duas horas de filme sem se comover ou se importar com mais nada, a não ser com aquele belo enquadramento ou a adrenalina e realidade das cenas de tiroteio, executadas com maestria por um diretor competente com 100 milhões de dólares de orçamento e uma equipe extremamente competente.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A invasão dos vampiros que bebem água com açúcar

Os vampiros são figuras míticas do folclore mundial que nos fascinam há séculos, desde as primeiras lendas, transmitidas oralmente. A literatura e o cinema foram tomados, ao longo dos anos, por um sem número de histórias envolvendo estes personagens que se alimentam da força vital de outros, o que normalmente é representado pelo seu hábito de beber o sangue de suas vítimas. Mais do que isso, essas criaturas estão relacionadas no imaginário popular ao mistério, ao terror, ao sexo, à sedução e, principalmente ao desejo humano de resistir ao tempo e à morte, que são provavelmente os únicos limites que jamais conquistaremos.

No cinema, eles já foram explorados em centenas de filmes dos mais variados gêneros, que vão desde o clássico do expressionismo alemão Nosferatu (1922), de Murnau, à adaptações de obras literárias de sucesso, como Entrevista com o Vampiro (1994), do livro de Anne Rice, e Drácula (1992), adaptado a partir do romance de Bram Stoker sobre o mais famoso vampiro de todos os tempos. Se quiser, você pode conferir uma lista com os 70 melhores filmes de vampiros de todos os tempos, na opinião do autor, aqui.

Na televisão, tanto no Brasil quanto no exterior, os vampiros fizeram sucesso como protagonistas e antagonistas de novelas e seriados, com destaque para Buffy, a Caça Vampiros, que teve sete temporadas a partir de 1997 e ainda gerou spin-offs.

Mas os executivos responsáveis por produzir conteúdo para televisão e cinema operam na lógica capitalista moderna, que tem como um de seus pilares proteger seus investimentos através da busca do máximo de lucro com o mínimo de risco. Os públicos de TV e cinema diminuem. Assim, todos querem atingir os adolescentes, que são quem mais consomem produtos audiovisuais. Para Hollywood, em particular, isso significa atingir a 'mágica' classificação PG-13 no mercado norteamericano.

É evidente que histórias de vampiros vendem. O mistério, o sobrenatural vendem, são lucrativos. Mas a violência, o sexo e as questões morais complexas que acompanham estes personagens impedem os executivos de lucrar mais se arriscando menos. A solução é óbvia: adaptar obras que fizeram sucesso e que, de um jeito ou de outro, abandonaram as questões controversas que incomodam uma sociedade cada vez mais conservadora. Se deixa de lado o sangue, o terror, a sexualidade, as implicações morais do ato de se alimentar da vida de alguém até que não reste mais nada além de um romance adolescente devidamente reprimido que, com a dose certa de publicidade e o casting adequado, vai arrebatar adolescentes ao redor do mundo, garantindo os lucros exorbitantes dos investidores de filmes como esses da saga Crepúsculo. E, pela lógica do capitalismo e do consumo, quando um produto faz sucesso, o mercado é inundado por similares que geralmente conseguem ser piores do que o original, como essa série que a Warner exibe agora, Diários de Vampiro.

Como nem tudo está perdido, ainda há quem encontre espaço para produzir livros, filmes e séries com a verdadeira essência dos vampiros, ou ainda com uma visão original que consiga preservar os dilemas que permeiam o universo de homens e mulheres imortais que pagam um alto preço por esse dom. True Blood, seriado da HBO americana, encontrou nos livros de Charlaine Harris material rico e não se absteve de levar para as telas questões morais, sociais e políticas de forma tão adulta e crua, que é recomendado para maiores de 18 anos. Mesmo assim, faz enorme sucesso. Daybreakers (2010) aposta no gênero sci fi e parece propor a inversão de alguns paradigmas pra trazer algo de novo para as histórias de vampiros sem abandonar seus conceitos básicos, ainda que seja um blockbuster. Estreia ano que vem. Vamos esperar. Por fim, o aclamado sueco Deixe Ela Entrar (2008), de Tomas Alfredson, baseado no livro e com roteiro de John Ajvide Lindqvist, é um dos mais belos filmes que vi nos últimos tempos. Em cartaz nos cinemas, é simplesmente imperdível. Nem seria justo falar desse filme sem dedicar um post inteiro a ele.

Por isso, nesse final de semana, mesmo que não seja possível compará-los, se quiserem ver um filme sobre vampiros, vão conferir o sueco e, por favor, evitem os filmes de vampiros que se alimentam de água com açúcar, que me assustam muito mais do que os de verdade.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Lost In Translation

Peguei emprestado o título do excelente filme de 2003 da diretora e roteirista Sofia Coppola para contar um pouco do processo de adaptar Retrato de Família para uma língua estrangeira.

A adaptação desse roteiro de drama no qual já venho trabalhando há um tempo faz parte de um plano para tentar encontrar algum espaço no mercado internacional que, apesar de muito mais concorrido, tem também muito mais oportunidades.

O primeiro passo para iniciar esse trabalho foi olhar para a história como um todo e identificar nela o que precisaria ser modificado numa transposição para uma realidade estrangeira. Americana, no caso. Facilitou muito o fato desse drama ser basicamente uma história universal sobre a culpa e a perda. Uma história essencialmente humana que poderia se passar em qualquer lugar do mundo.

Depois, comecei a escrever, do zero, em inglês. O que parecia ser o mais difícil, os diálogos, acabaram vindo naturalmente. É claro que os personagens são pessoas comuns e isso ajuda bastante. Nada de intelectuais de vocabulário rebuscado ou o palavreado técnico típico de uma carreira científica, por exemplo. Se estima que o vocabulário que a maioria das pessoas utilizam para se comunicar verbalmente representa uma pequena fração das palavras existentes em uma dada língua. Talvez isso e o fato de já ter assistido tantos filmes e seriados expliquem essa grata surpresa.

Mas, como o título do post sugere, nem tudo são flores nesse processo. Assim como ocorre com os personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson em Lost In Translation, a sensação de vazio e de solidão por vezes toma conta. Acho que é inevitável quando se está escrevendo em uma língua estrangeira, ainda que você esteja cercado de dicionários e ferramentas para apoiá-lo nessa tarefa. O que parecia ser fácil, as descrições de cena, acabaram se revelando um tremendo desafio. Isso porque, apesar de a prosa audiovisual ser enxuta e estritamente visual, de vez em quando a palavra mais interessante falta, a melhor construção escapa. Não é que não haja palavras no meu vocabulário, ou referências e regras para a construção gramatical adequada. É que, versátil como poucas, a língua inglesa permite ao interlocutor uma miríade de opções na hora de formar orações e sentenças. E é preciso fluência, experiência e sensibilidade na hora de escolher a forma mais elegante e instigante de descrever algo tão simples quanto alguém que se levanta de sua mesa e atravessa um ambiente.

Aos poucos, eu chego lá.